Poeta matemático
Um matemático que escreve poesias. Um poeta que ama a matemática.
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Textos
O MENINO QUE CONVERSAVA COM O SILÊNCIO
Desde cedo, percebia o absurdo como se fosse evidente. O mundo, para ele, era simples — mas os adultos tinham o dom de transformar a clareza em labirinto. O que poderia ser luz tornava-se sombra.

Perguntava-se em silêncio, como quem dialoga com o próprio destino:
— Sou diferente? Ou apenas um esquisito arrogante e burro?

Era tímido até a raiz da alma. A palavra, quando precisava ser dita, tornava-se pedra na boca. Gaguejava, tropeçava, e cada frase era um abismo. Havia quem duvidasse de sua normalidade, como se fosse um ser à margem da ordem humana.

Buscou a igreja, não por fé, mas por pertencimento. Talvez ali encontrasse uma menina que o olhasse com ternura. Mas o olhar não vinha. Treinava gestos, ensaiava palavras, e tudo se desfazia como areia entre os dedos.

Então, refugiou-se nos livros. Não apenas nos da religião, mas nos que ousavam questionar. Sentia que queriam aprisioná-lo em culpa e medo, e por isso começou a desconfiar das verdades absolutas. Foi nesse instante que nasceu a pergunta que mudaria sua vida: “E se houvesse outro jeito de ver?”

Os livros tornaram-se espelhos secretos. Conversava com eles como quem fala com fantasmas benevolentes. Descobriu que podia escrever o que não ousava pronunciar. Se os autores conseguiam atravessar o tempo e falar com ele sem conhecê-lo, também poderia lançar suas palavras ao vento, sem medo de ser chamado de louco.

A loucura, aliás, o fascinava. Criava mundos impossíveis, onde apenas sua imaginação reinava. Mundos que conviviam com o real, mas não se curvavam à mesquinhez cotidiana. Era sua forma de brincar com o invisível, de dar corpo ao que não existia.

Até que um dia, algo maior o invadiu: uma força avassaladora, inexplicável, que tomou seu peito e sua alma. Era o amor — semente que germinava sem pedir licença.

Desesperado, voltou-se novamente aos livros, desta vez à literatura. Neles encontrou não apenas respostas, mas reflexos de sua própria vida. E foi assim que começou a escrever poesias para aquela que não ousava confessar, cujo nome completo nem sabia.

Foi então que compreendeu: as musas nascem antes da poesia. A inspiração é anterior à palavra, como o vento que sopra antes da onda.
Poeta matemático
Enviado por Poeta matemático em 10/05/2026
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