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QUEM FALA INTERNAMENTE POR MIM?
Ontem despertei cedo.
O sol — como sempre —
indiferente ao meu despertar.
Havia café, calçado e pão.
Havia roupa até no varal.
havia um corpo que respondia por mim.
Olhei o quintal:
plantas cresciam sem me consultar,
flores exuberantes se abriam
alheias ao meu nome.
Então olhei para cima —
gesto antigo, costumeiro,
aprendido antes de mim.
E algo falou. Diria que gritou;
ou pensei que falasse.
Mas quem fala internamente
quando penso me ouvir?
Se era Deus,
por que precisava da minha escuta?
Se era eu,
por que soava como outro?
- Não soube distinguir.
Veio um choro —
não sei de onde —
como se a alma
fosse um lugar onde guardo
o que nunca entendi.
E disse: “fui ingrato”.
Mas quem, em mim,
mede a ingratidão?
Quem nomeia o excesso,
quem inventa a falta?
Pedi, reclamei, rezei
a um silêncio que sempre respondeu
com o que já havia.
Ou nada respondeu.
Talvez nunca tenha faltado coisa alguma.
Talvez a falta
seja apenas a voz do desejo
tentando se justificar.
E o desejo —
esse que digo meu —
de onde vem?
Se há Deus,
fala através de mim
ou é apenas o nome
que dou ao que não controlo?
Se sou eu,
por que me escapo
cada vez que me escuto?
Agora choro —
mas já não sei se é culpa,
gratidão,
ou apenas o corpo
se reconhecendo finito.
Poeta matemático
Enviado por Poeta matemático em 17/04/2026
Alterado em 17/04/2026