Textos
DISTOPIA
Quando alguém se enfurece porque o Estado oferece gás a quem tem pouco ou quase nada para cozinhar, mas aplaude doações destinadas aos que já vivem em abundância, a cena se transforma em um teatro de sombras: os frágeis são ridicularizados, enquanto os poderosos recebem aplausos.
Que ódio é esse, voltado contra os que mais precisam, enquanto se reverencia os que ferem e espoliam? É como se uma doença social tivesse corroído a empatia, invertendo valores e transformando solidariedade em motivo de rancor.
Vivemos em um banquete distópico, onde poucos comem até se fartar e muitos assistem famintos, acreditando na mentira da meritocracia. A subserviência se alimenta de ilusões, e a ira nasce da crença de que pobreza é sinônimo de preguiça.
O mais perturbador é a justificativa moral: “Eu tenho tantos anos e nunca precisei disso. Sempre trabalhei.” A frase ecoa como sentença cruel, como se o trabalho fosse sempre justamente remunerado, como se esforço garantisse dignidade.
É a distopia da desigualdade: um mundo em que a ética se veste de arrogância, a justiça se confunde com privilégio e a humanidade se dissolve em indiferença.
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Poeta matemático
Enviado por Poeta matemático em 04/02/2026